A decadência da visão espiritual e os reflexos no ministério

“Tenham cuidado, irmãos, para que nenhum de vocês tenha um coração mau e descrente, que se afaste do Deus vivo.” (Hb 3.12, NAA).”

A derrocada de uma importante família sacerdotal da história de Israel tem muito a nos ensinar a respeito da importância da santidade no ministério pastoral e na vida do povo de Deus. (1Sm 2 a 7).

Neste artigo, iremos refletir a trajetória do ministério sacerdotal de Eli e 7 sinais da decadência de sua visão espiritual e suas consequências.

Eli havia sido especialmente escolhido por Deus para ser Sacerdote e juiz em Israel (1Sm 2.28). Mas, infelizmente, não foi fiel em sua missão. Ele já havia demonstrado falta de discernimento quando julgou que Ana estivesse embriagada quando ela, de fato, apenas orava em seu coração, mexendo os lábios. (1Sm 1.12-14). Sua falta de visão irá se agravar mais e mais devido ao seu distanciamento de Deus. As visões de Deus se tornaram cada vez menos frequentes (1Sm 3.1) e ele terminará sua carreira completamente cego (1Sm 3.2). Eli acabou também fazendo vistas grossas aos pecados dos filhos, Hofni e Fineias, que se tornaram sacerdotes sem as qualificações morais necessárias. Seus filhos “eram homens malignos e não se importavam com o Senhor” (1Sm 2.12). Não se contentando com o seu salário, tomavam para si aquilo que pertencia a Deus, desonrando assim seu ofício sacerdotal (1Sm 2.12-17). Além disto, sem pudor algum, eles tomavam partido de sua liderança para assediarem e praticarem sexo com diversas mulheres que serviam à porta do Santuário (1Sm 2.22).

Eli até chegou a chamar à atenção deles, mas estes não lhe deram ouvidos, pois eram filhos rebeldes (1Sm 2.23-25). Acontece que Eli não foi suficientemente enérgico e acabou permitindo que seus filhos seguissem sem mudança de atitude no ministério sacerdotal.

Então, a ira de Deus recaiu sobre Eli e filhos: “Por que tratam com desprezo os meus sacrifícios? … E, você, por que honra seus filhos mais do que a mim?”. (2.29). Em seguida, Deus pronuncia um castigo de morte e destruição sobre a casa de Eli (1Sm 2.30-34). “Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo.” (Hb 10.31, NAA).

Os sacerdotes incorrem na condenação de Deus quando perdem o temor do Senhor, quando se tornam mercenários, quando se entregam à luxúria e quando amam os filhos, ou cônjuges, ou o próprio status de líder mais do que a Deus.

Os pecados destes sacerdotes levaram o povo a também afastar-se de Deus (1Sm 2.24). Deus retirou sua bênção e o povo foi derrotado em uma batalha contra os filisteus (4.2). “Não se enganem: de Deus não se zomba. Pois aquilo que a pessoa semear, isso também colherá” (Gl 6.7, NAA).

O povo achava que a Arca da Aliança os salvaria, e pediram que fosse trazida antes da próxima batalha. Quando Hofni e Fineias chegaram ao acampamento carregando a Arca da Aliança, “os israelitas gritam tão alto que o chão tremeu” Fizeram um culto fervoroso de confissão positiva, confiados na possessão da Arca. Tal fervor impressionou até os filisteus (1Sm 4.6), mas não a Deus. “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.” (Mt 15.8, NAA). Deus abomina cultos hipócritas: “Não posso suportar iniquidade associada à reunião solene.” (Is 1.13, NAA). De nada adianta a Arca da Aliança quando não estamos sendo fiéis a Aliança. Deus diz: “Obediência quero e não sacrifícios” (1Sm 15.22-23).

“Fizeram muito barulho, mas Deus não os atendeu (1Sm 4.10). Trinta mil homens morreram na  batalha que se seguiu, entre eles, Hofni e Finéias (1Sm 4.10-11).  A Arca foi parar nas mãos dos filisteus (1Sm 4.11). Eli, abalado com a notícia, caiu da cadeira, quebrou o pescoço e morreu (1Sm 4.18). A mulher de Fineias, que estava grávida, prematuramente, deu à luz um menino, e, arrasada com todas estas notícias, deu a seu filho o nome de Icabô, que significa, foi-se embora a glória de Israel. (1Sm 4.21). Com Icabô encerra-se de forma dramática a era sacerdotal da casa de Eli.

Enquanto, Eli e seus filhos trouxeram derrota e vergonha  ao povo de Deus, o Senhor agia para vindicar a glória de Seu nome que estava sendo blasfemado entre os filisteus, que, para tripudiar e humilhar, colocaram a Arca da Aliança diante da estátua de seu deus, Dagom (1Sm 5.2). No entanto, de forma assombrosa, a estátua de Dagom amanheceu caída com o rosto em terra, diante da Arca do Senhor (1Sm 5.3)! Associado a isto, uma praga acometeu a saúde do povo daquela cidade (1Sm 5.6), de modo que um temor se abateu sobre os filisteus, a ponto de decidirem devolver a Arca ao povo hebreu (1Sm 5.11 e 1Sm 6.1-21). O temor de Deus que faltou aos sacerdotes de Israel agora era visto entre os pagãos!

É notável que, mesmo antes da morte de Eli, Deus já havia escolhido um sucessor: o menino Samuel, cujo nascimento já tinha se dado através de uma intervenção milagrosa de Deus (1Sm 1.1-2.11). Mesmo tendo sido criado em um contexto de tantos maus exemplos, Samuel, manteve-se íntegro, não deixando-se levar pela correnteza, antes, ele “crescia em estatura e no favor do Senhor e dos homens”(1Sm 2.26).

É dito que a palavra de Deus e as visões se tornaram muito raras nos dias do sacerdócio da casa de Eli (1Sm 3.1). Mas “antes que a lâmpada de Deus se apagasse” (1Sm 3.3), a Palavra de Deus se manifestou a Samuel (1Sm 3.4), que acolheu a voz de Deus, dizendo: “Fala Senhor porque teu servo ouve” (1Sm 3.10). Enquanto os olhos de Eli se escureciam (1Sm 3.2), Deus dava visões a Samuel (1Sm 3.11-19). Devido a sua prontidão em obedecer ao Senhor, Deus fez de Samuel um verdadeiro profeta (1Sm 3.19 ), que, após a morte de Eli, Hofni e Fineias, tornou-se naturalmente o líder de Israel.

7 Sinais da decadência da visão espiritual do Sacerdote Eli:

  1. Demonstrou falta de discernimento quando julgou que Ana estivesse embriagada quando ela, de fato, apenas orava em seu coração, mexendo os lábios. (1Sm 1.12-14).
  2. Fez vistas grossas aos pecados dos filhos. (1Sm 2).
  3. As visões de Deus se tornaram cada vez menos frequentes (1Sm 3.1)
  4. Terminou sua carreira completamente cego fisicamente, o que, dentro deste contexto, parece também indicar sua cegueira espiritual (1Sm 3.2).
  5. Observe a seguinte sequencia: Palavra e visões de Deus eram raras (v.1), a luz dos olhos de Eli se escurecendo (v2) e é dito também que a luz da lâmpada de Deus também estava se apagando no santuário (v. 3 e 4). “Antes que a lâmpada de Deus se apagasse, o SENHOR chamou o menino” (1Sm 3.3–4).
  6. Deus não fala mais com Eli, mas apenas com Samuel. (1Sm 3)
  7. Um exemplo de sua falta de visão foi ter permitido que a Arca da Aliança fosse levada como objeto de idolatria, sendo que ele deveria saber que o que faltava não era a Arca, mas o arrependimento dele, de seus filhos e de todo o povo, pois todos haviam se apartado de Deus. (1Sm 4).

Ao contrário de Eli, Samuel foi sensível a voz de Deus e obediente a visão celestial. Ele promoveu um despertamento espiritual em Israel! Ele conclamou o povo ao arrependimento (1Sm 7.3). O povo confessou os seus pecados (1Sm 7.6), abandonou os seus ídolos (1Sm 7.4) e voltou-se para Deus com humildade, jejum e oração (1Sm 7.6). Diante de uma nova ameaça de guerra por parte dos filisteus, o povo solicitou a Samuel que intercedesse por eles diante de Deus (1Sm 7.8). O Senhor respondeu dos altos céus (1Sm 7.9), trovejando sobre os filisteus (1Sm 7.10), que acabou sendo derrotado nesta guerra (1Sm 7.10).

Que contraste vemos aqui em relação à atitude triunfalista e arrogante do povo liderado por Hofni e Fineias que festejava com brados de vitória o fato de possuírem a Arca (1Sm 4.5). Suas palavras de confissão positiva não lhes garantiram a vitória (1Sm 4.10). Entretanto, as palavras de confissão de pecados produziram uma resposta retumbante dos altos céus! Não é o barulho na terra que produz barulho no céu, mas, sim, corações humildes e contritos diante do Criador! “Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade.” (Jo 4.24, NAA). Não adianta ter o carisma da Arca e do Sacerdócio, é preciso ter o caráter de servo que reconhece sua dependência de Deus, pois nada substitui a humilde obediência.

A vida e ministério da casa de Eli terminam com o emblemático termo: “Icabô” (foi-se a glória de Israel), já o início do ministério de Samuel começa com um grande triunfo expresso pelo termo Ebenézer (1Sm 7.12), que significa: “Até aqui nos ajudou o Senhor!”. A promessa se cumpriu em Samuel: ““Então suscitarei para mim um sacerdote fiel, que fará segundo o que tenho no coração e na mente. Eu lhe edificarei uma casa estável, e ele andará diante do meu ungido para sempre.” (1Sm 2.35, NAA).

Como vimos, Deus não se deixa escarnecer nem por pagãos filisteus e nem, muito menos, por sacerdotes do seu próprio povo, o juízo começa pela casa de Deus (1Pe 4.17). E àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido (Lc 12.48, NAA). Portanto, “afaste-se da iniqüidade todo aquele que confessa o nome do Senhor”. (2Tm 2.19, NVI). “Ora, além disso, o que se requer destes encarregados é que cada um deles seja encontrado fiel.” (1Co 4.2, NAA). Sigamos, portanto, o exemplo de Samuel para que nossas vidas jamais terminem em Icabô, mas, sejam sempre caracterizadas por um bendito Ebenézer!

Sobre o autor:

José Ildo Swartele de Mello é bispo do Concílio Geral da Igreja Metodista Livre do Brasil e de Angola, pastor da Imel de Mirandópolis, professor do Seminário Bíblico Wesleyano e conferencista. Bacharel em teologia pela Faculdade de Teologia Metodista Livre, cursou mestrado em teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo e Doutorado em Ministério pela Faculdade Teológica Sul Americana. Foi por dois mandatos presidente do Concílio Mundial de Bispos Metodistas Livres. Autor do livro Principados e Poderes e de centenas de artigos do Blog Escatologia Cristã e do Canal de vídeos no Youtube. Membro do Conselho Coordenador da Aliança Cristã Evangélica Brasileira.

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