MANIFESTO EM DEFESA DA DEMOCRACIA E DOS VALORES EVANGÉLICOS SOBRE A PARTICIPAÇÃO POLÍTICA CRISTÃ.

A Aliança Evangélica reafirma seu compromisso com os valores democráticos, com o Estado de direito e com as autoridades brasileiras legitimamente constituídas.
Por: Aliança Cristã Evangélica Brasileira
A

democracia é o regime político que permite a divergência de ideias na forma da lei. Manifestamos nossa clara repulsa a qualquer tentativa de ruptura com o processo democrático e o império da lei. Reafirmamos nosso compromisso em promover a unidade do corpo de Cristo, sendo também voz profética para o nosso país. Celebramos nestes dias a independência do Brasil e todas as demais conquistas a partir dela, porém estamos conscientes do momento conturbado que atravessamos, lamentando, sobretudo, as mais de 580 mil mortes pela Covid19. O objetivo deste texto é nos posicionarmos diante de possíveis ameaças à ordem constitucional, apontando valores evangélicos sobre a participação política cristã.

A participação política e cívica é incentivada às comunidades cristãs desde a igreja primitiva, como atesta o Novo Testamento. Esta participação, contudo, é diretamente norteada por valores sólidos, tais como:

  1. A participação política e cívica cristã é pautada no amor e na fidelidade a Jesus Cristo acima de todas as coisas. Jesus é nosso bendito e único soberano, Rei dos reis e Senhor dos senhores (1Tm 6.15). Os cristãos são advertidos contra o pecado da idolatria (1Co 10.14), que é equivalente ao pecado da ganância (Cl 3.5). Assim, somos exortados a amar a Cristo acima de qualquer outra pessoa, incluindo líderes políticos, parentes ou a nós próprios (Lc 14.26), de todo coração, todo entendimento, toda alma, e toda força (Mc 12.30). 
  2. A participação política e cívica cristã permite a diversidade de opiniões entre os verdadeiros cristãos, incluindo divergências políticas. Unidade não é uniformidade. É um fato ordinário que haja discordâncias entre seres humanos, mesmo entre cristãos (At 15.36-41). Contudo, o modo cristão de resolver as discordâncias, incluindo os conflitos políticos, é sempre norteado pelo imperativo do amor ao próximo (Rm 13.8-10),  visando o bem comum (1Tm 2.1-6). 
  3. A participação política e cívica cristã jamais desrespeita ou esvazia a humanidade de ninguém, nem dá lugar ao ódio e ao linguajar ofensivo, que são obras da carne. O cristão deve tratar todas as pessoas com respeito e amor (Rm 13.8-10), sendo exortado a morrer por Cristo se necessário, mas nunca a matar em nome de Cristo, pelo contrário, amar seus inimigos e orar por aqueles que o perseguem (Mt 5.43-48). A marca da maturidade cristã é o equilíbrio entre a verdade e o amor (Ef 4.15). Todo confronto com a verdade, a partir da comunidade cristã,  deve ser feito em amor, visto que o ódio e o desejo de matar são características das pessoas sem Deus (Gl 5.20) e dos filhos do Maligno (1Jo 3.11-18, Ef 4.26-27). As respostas do cristão, incluindo conversas sobre política, devem ser “sempre agradáveis e temperadas com sal” (Cl 4.5-6). O cristão deve abençoar quem o ofende (Rm 12.14), não retribuir mal com mal (Rm 12.17) e não ser vingativo, mas generoso e misericordioso (Rm 12.19-21). Jesus afirma que seremos julgados por Deus por cada palavra que dissermos (Mt 12.36). A luta cristã não é contra carne ou sangue, mas espiritual, por isso deve ser realizada em espírito de oração (Ef 6.12-18). 
  4. A participação política e cívica cristã não é desesperada e ansiosa, pois a fé da igreja está em Cristo e não no poder humano. No Novo Testamento a atividade política não é uma atividade corredentora, visto que  a salvação e esperança cristã estão firmadas somente em Jesus Cristo (At 4.12). O mesmo texto que ensina a orar pelas autoridades, também ensina que  Jesus Cristo é o único Mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.1-6). A ansiedade com desafios materiais, que também se manifesta na ansiedade política, foi condenada por Jesus como uma forma de incredulidade na providência divina. A prioridade cristã é o Reino de Deus (Mt 6.25-34). Jesus redirecionou as expectativas políticas dos discípulos para uma missão de testemunho espiritual até os confins da terra (At 1.6-8). Os cristãos podem sofrer na caminhada por diversas razões, incluindo as injustiças políticas, mas pela misericórdia de Cristo não sucumbem ao cinismo e ao desespero (2Co 4.8-9). 
  5. A participação política e cívica cristã visa promover a convivência e a viabilidade da sociedade. A política não é um fim em si mesmo, mas uma ferramenta para a promoção do bem comum, da civilidade e da convivência entre as pessoas (Rm 13.1-7), baseada na justiça e nos valores do Reino de Deus. Portanto as orações da igreja são democráticas, em prol de todas as autoridades e de todas as pessoas (1Tm 2.1-2). O cristão não é ensinado a pensar e agir facciosamente nem com intolerância, mas sempre visando o conjunto de uma sociedade tranquila e pacífica (1Tm 2.2). O ministério da igreja não é promover a polêmica e a divisão, mas a reconciliação (2Co 5:10). A Reforma Protestante reafirmou o sacerdócio universal de todos os crentes. Somente Jesus Cristo é Senhor, Salvador e Mediador entre Deus e seres humanos. Reafirmado este preceito elementar, é válido ressaltar que os pastores cristãos devem exercer uma influência amorosa sobre o rebanho de Cristo, não sendo violentos, mas amáveis, pacíficos e não apegados ao dinheiro (1Tm 3.3). Devem agir motivados pelo desejo de servir e não com ganância (1Pe 5.2), não como dominadores, mas como exemplos de testemunho cristão (1Pe 5.3). O Novo Testamento faz um alerta a todos os pastores que têm sede de poder (3Jo 9-10). Oramos para que os pastores exerçam seus ministérios com amor, dignidade e responsabilidade diante de Deus e de toda a sociedade.

Neste  tempo de crise, a Aliança Cristã Evangélica Brasileira recomenda a todos os cristãos:

Oração: oremos individualmente, nas nossas casas, nas igrejas e comunidades de fé, pelas autoridades constituídas em todos os níveis. Sejam do executivo, legislativo e judiciário. 

Discernimento: busquemos o entendimento, procuremos boa orientação, fujamos daqueles que semeiam valores incompatíveis com o Evangelho, como o ódio, a destruição do outro e a divisão.

Amor: pratiquemos o amor exercitando o respeito, a tolerância e a empatia. Respeitemos o direito de manifestação e de silêncio daqueles que são contrários às nossas convicções políticas. Pratiquemos o diálogo e a escuta atenciosa e amorosa nos dissensos e debates políticos.

Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, mas não tiver amor, nada disso me valerá

1Coríntios 13.3

autor: Aliança Evangélica Brasileira

Aliança Evangélica confessa sua fé em sintonia com o legado evangélico alicerçado nos marcos da Reforma Protestante: a suficiência das Escrituras, a mediação de Jesus Cristo e a justificação pela graça mediante a fé. Afirmamos a fé bíblica com a comunidade evangélica histórica e global, a partir do Credo Apostólico.

Comments (12)

Amados Irmãos,

Muito rico o conteúdo do manifesto e nos dá boa base nas ações de cidadania para o cristão contemporâneo.

É perceptível que o manifesto visa mais doutrinar o cristão na política, seja eleitor ou candidato no exercício cívico, ao invés de comunicar posição legal e de direitos aos Poderes da República, do que pensam o segmento cristão, composto de milhões de cidadãos no país.

Parece-me que a ACEB vai aguardar líderes cristãos serem presos por causa da sua fé e crenças, para agir efetivamente em defesa dos que representam e da fé cristã.

Deixo aqui a minha indagação: O que fez a Aliança Cristã Evangélica Brasileira, em nome daqueles que representam, dirigindo-se aos Poderes da República em crise, declarando a sua defesa pelas Liberdades de Expressão e Crenças, e pelos Direitos Fundamentais Constitucionais, ora ameaçados, ora cerceados, por membros de Tribunais, em modelo de regime de exceção, quando abre o processo, em desrespeito às prerrogativas do MP, investiga por conta própria, manda prender cidadãos antes de julgar, e se acham acima da Lei?

O que as entidades representativas do segmento evangélico precisam fazer é ter posições acerca dos Direitos Fundamentais já consagrados na Constituição do país, bem como identidade e valores, em defesa do bem comum, enquanto Igreja Cristã, visando contribuir com a unidade nacional.

Efetivamente, quando necessário, comunicar aos Poderes da República pelos canais legítimos, respeitosamente, sem medos. Não ficar em cima do muro ou agindo pelo politicamente correto. Quando nos posicionamos, podemos, ao invés da crítica em si, apresentar sugestões, caminhos de convergências, etc.. A bússola está em nossas mãos, sabemos do seu valor e autoridade (II Tm 3.16-17).

Independe de quem esteja no poder, das siglas de partidos, se de esquerda ou direita, vamos agir com moderação, sabedoria e amor pela verdade, à luz das Escrituras de acordo, imparcialmente, diante dos desafios que se apresentem. Desse modo, Igreja – Reino de Deus, marcamos espaço na sociedade hodierna. E que se traduza em menos sofrimentos humanos, sedimentando uma sociedade madura, com dignidade de vida para todos, até que Jesus venha.

A sensação que é a nossa ação de cidadania, embora pública, manifesta-se no genérico, sem objetivo e sem diretiva. E com pouca eficácia na participação social e política. E as injustiças sociais se perpetuando, se sobrepondo umas sobre as outras. Está evidente ausência de fome e sede de justiça de um amor pálido, não preventivo. A Voz profética da Igreja só se levanta nos corredores de templos, nos sites que poucos leem.
E pode ser duro, mas afirmo: É como a luz de pouca ilumina e sal que pouco salga. Ser sal e luz é neste mundo. E papai do céu seja glorificado. Daqui a pouco, adentraremos à eternidade com Deus. E não precisaremos mais desempenhar o papel de sal e luz, nem ter fome e de sede de justiça.

É um feedback. Reflitamos. Desculpe-me os reflexos de indignação. Papai do céu também fica assim todos os dias (Sl 7.11).

Era o posicionamento para minhas indignações quanto ao cenário político que estamos vivendo. Concordo com a ISABELLE LUDOVICO DA SILVA:

“Eu acrescentaria que a participação política e cívica cristã visa promover os valores do Reino de justiça social, integridade, proteção dos excluídos e da natureza para a construção uma sociedade mais justa e sustentável.”

Muito bom, mas preciso acrescentar : o que seriam dos negros norte americanos e outros, se o pastor Batista, Martin Luther King não lutasse contra a segregação racial entre negros e brancos?
Nosso país vive segregação em várias áreas. Onde vamos parar?

Eu apoio esse manifesto cheio de bom senso e baseado nas escrituras sagradas!

Elias Monteiro Bispo Filho

Um manifesto lúcido e calcado nos valores do Reino.
Subscrevo.

Geraldo Magela da Cruz

Oração, Discernimento e Amor, tudo bem, mas, sejamos realistas, não podemos ser omissos e muito menos deixar de orientar a igreja que o Senhor nos chamou para cuidar, zelar, amar, servir e sem dúvida agir de forma ordenada em meio às atrocidades, injustiças de instituições que rasgaram a Constituição e “criaram leis em benefício próprio.

Isabelle Ludovico da Silva

Eu acrescentaria que a participação política e cívica cristã visa promover os valores do Reino de justiça social, integridade, proteção dos excluídos e da natureza para a construção uma sociedade mais justa e sustentável.

Carlos Alberto Kunz

Membros do corpo diretivo da Aliança Evangélica, parabéns pelo texto assertivo, coerente com o Evangelho de Jesus Cristo e corajoso para a atualidade Brasileira. Certamente haverá muitas contestações e ruídos. Exatamente por isso, palavras assertivas como essas são necessárias.

Segundo a utopia da Aliança, o poder legitimamente constituído não se desvia de sua finalidade, como está acontecendo com a opressão do STF sobre as liberdades individuais.
Se a instituição se torna ditadora para alimentar seu ego e seguir ideologias Marxistas pessoais de modo a impor sobre todos essas pessoas legalmente colocadas lá merecem ser destituidas, nem que seja a força.

Concordo com a declaração acima, porém o grande desafio é saber o limite de pacífico e omisso. Estão colocando em jogo nossa liberdade de expressão. Até aonde poderão chegar ? Tenho muita preocupação de enterrar meu talento!

Isabelle Ludovico da Silva

Eu acrescentaria que a participação política e cívica cristã visa promover os valores do Reino de justiça social, integridade, proteção dos excluídos e da natureza para a construção uma sociedade mais justa e sustentável.

Gostei. Sermos pacíficos, não omissos! É isso!

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Privacy Preferences
When you visit our website, it may store information through your browser from specific services, usually in form of cookies. Here you can change your privacy preferences. Please note that blocking some types of cookies may impact your experience on our website and the services we offer.