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Ao redor da mesma mesa – Encontros à Mesa 2026

Reflexão pastoral sobre os dias do Encontros à Mesa 2026

Encerramos em Limeira quatro dias de encontro. Vieram presidentes de denominações, líderes de organizações paraeclesiásticas, pastores e pastoras de regiões bastante distantes umas das outras, e o que reuniu esse grupo não foi um acordo prévio sobre todas as coisas, mas uma convicção comum a respeito de Jesus Cristo e de sua Igreja. Escrevemos ainda com a impressão fresca, porque há experiências que perdem nitidez quando se demora a registrá-las.

Ficam perguntas que valem a pena ser feitas em voz alta. O que leva homens e mulheres de tradições eclesiásticas distintas a se sentarem à mesma mesa durante quatro dias? O que os mantém ali quando as divergências aparecem? E o que esse gesto simples, sentar-se junto, tem a dizer a um país que quase não consegue mais conversar sem se dividir?

1. O que vivemos em Limeira

A programação foi densa. Painéis sobre a saúde da liderança, saúde da comunidade de fé e sobre a igreja diante da sociedade, das cidades e da Nação. Mesas de trabalho em que ninguém era apenas ouvinte, porque cada grupo precisava sair com encaminhamentos. A pesquisa do Aliança LAB sobre a saúde mental de pastores e pastoras brasileiros, que colocou números onde muitas vezes só temos suspeitas. O relato da Aliança pela Vida, mostrando igrejas cooperando no atendimento a pessoas em situação de emergência e desastre. A apresentação de uma gama ampla de recursos que diferentes organizações colocam à disposição da igreja local. Louvor, devocionais, leitura orante da Palavra, oração.

Boa parte do que ficou, porém, não nasceu da programação oficial. Nasceu nos intervalos. No café da manhã, no almoço, na fila do coffee break, na conversa de corredor que se estendeu além do horário previsto. Foi ali que se deu o reconhecimento mútuo, a troca de experiências, o pedido de conselho, o registro de um telefone, a promessa de continuar a conversa. Foi ali, sobretudo, a alegria de conhecer pessoalmente quem antes era apenas um nome, de trocar ideias sem a formalidade de um púlpito no meio, e de poder abraçar. Quão doce é a comunhão dos remidos do Senhor. Não se trata de sentimentalismo religioso: o salmista já havia percebido que existe algo de bom e agradável, e não apenas de conveniente, na convivência dos irmãos (Sl 133.1).

2. Unidade não é uniformidade

É preciso dizer com franqueza o que aconteceu naquelas mesas, sob pena de idealizar o encontro. Havia divergências reais. Diferenças de eclesiologia, de forma de governo, de prática litúrgica, de ênfase doutrinária, de leitura sobre como a igreja deve se posicionar diante de certas questões da sociedade. Ninguém foi a Limeira para fingir que essas diferenças não existem, e ninguém saiu de lá convertido à tradição do vizinho de mesa.

O que buscamos não foi uniformidade. A uniformidade é fácil de produzir e cara de manter: basta silenciar quem discorda ou reduzir a fé ao mínimo denominador comum que ninguém contesta porque já não afirma quase nada. A unidade bíblica é outra coisa. Ela não é resultado de negociação, é dádiva. Paulo não manda a igreja de Éfeso fabricar a unidade, manda preservá-la: esforçar-se por guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz (Ef 4.3). O verbo é decisivo. A unidade já existe, porque há um só corpo e um só Espírito, um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos (Ef 4.4-6). O que nos cabe é não destruí-la.

Por isso o apóstolo antecede a exortação com uma descrição de caráter: humildade, mansidão, longanimidade, suportar uns aos outros em amor (Ef 4.2). A unidade não se sustenta por acordo intelectual, mas por virtude cristã praticada em relação a quem pensa diferente de mim. E o alvo do crescimento é claro: seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo recebe ajuste e coesão pela cooperação de cada parte (Ef 4.15-16). Verdade sem amor endurece; amor sem verdade dissolve. Pertencemos ao mesmo rebanho e ao mesmo corpo, e a cabeça não é nenhum de nós.

3. A oração que ainda governa a Igreja

Na noite anterior à cruz, quando qualquer um de nós estaria ocupado com a própria dor, Jesus orou por quem ainda viria a crer nele. Pediu que todos fossem um, à semelhança da comunhão que ele tem com o Pai, e declarou a finalidade: para que o mundo creia que tu me enviaste (Jo 17.20-21).

Essa oração não descreve um ideal decorativo. Ela estabelece uma relação direta entre a comunhão dos discípulos e a credibilidade do testemunho cristão. Quando a igreja se apresenta ao mundo dividida, competindo, desqualificando quem professa o mesmo Senhor, o problema não é apenas de convivência interna. É de missão. O mundo tem todo o direito de perguntar por que deveria crer numa reconciliação que os próprios reconciliados não conseguem viver entre si. Jesus mesmo disse que o sinal reconhecível dos seus discípulos seria o amor entre eles (Jo 13.35).

Vivemos um tempo de fragmentação e de polarização, dentro e fora da igreja. As redes premiam quem grita, quem rotula, quem transforma o irmão em adversário. Nesse contexto, sentar-se à mesma mesa com quem discorda de nós em pontos secundários e ainda assim reconhecê-lo como irmão é um ato de obediência, e também um ato de resistência.

4. A Ceia como sinal visível

O momento mais eloquente do retiro foi o Culto da Unidade, com a Ceia do Senhor. Ali não houve mais conferencista e ouvinte, presidente de denominação e representante de organização. Houve pecadores perdoados recebendo o mesmo pão e o mesmo cálice.

Paulo faz da Ceia o argumento visível da unidade da igreja: porque o pão é um só, nós, embora muitos, somos um só corpo, pois todos participamos do único pão (1Co 10.17). A mesa do Senhor não é propriedade de nenhuma denominação. É dele, e é ele quem convida. Comer juntos aquele pão foi, ao mesmo tempo, um julgamento sobre nossas divisões e um remédio para elas.

Adoramos juntos, cantamos juntos, oramos juntos, irmanados no mesmo Espírito. Quem esteve lá sabe que houve momentos em que a distinção entre as tradições simplesmente deixou de ocupar espaço.

5. A mesa que serve à missão

A unidade cristã não termina em si mesma, e este é o ponto em que o encontro nos pareceu mais maduro. Não nos reunimos para celebrar a boa convivência, mas para perguntar como servir melhor à igreja brasileira em sua missão.

Os relatórios da Aliança pela Vida mostraram que a unidade se prova no serviço concreto, quando igrejas de diferentes tradições cooperam para socorrer pessoas em situação de emergência e desastre. Os dados do Aliança LAB nos ajudaram a enxergar o tempo presente com mais honestidade, inclusive a condição emocional e espiritual de quem lidera. E a apresentação dos recursos oferecidos por diversas organizações paraeclesiásticas deixou evidente algo que muitos pastores desconhecem: existe ajuda disponível, existe material pronto, existe gente capacitada querendo servir à igreja local.

Somos chamados a ser sal da terra e luz do mundo (Mt 5.13-14), e a fazer discípulos de todas as nações (Mt 28.19-20). Nenhuma denominação dá conta disso sozinha. A cooperação não é estratégia de eficiência, é reconhecimento sincero de que a obra é maior do que qualquer um de nós e pertence a Cristo.

6. O que trazemos de volta

Escrevemos como Conselho da Aliança Cristã Evangélica Brasileira, e é exatamente para isso que esta casa existe: servir à comunhão entre igrejas e organizações que confessam o mesmo Senhor. A tradição cristã já formulou esse princípio de maneira que dificilmente será superada. João Wesley, no sermão sobre o espírito católico, tomando o encontro entre Jeú e Jonadabe (2Rs 10.15), disse: se o teu coração é como o meu coração, dá-me a tua mão. Ele não pedia que se abandonassem as convicções, nem confundia opinião com doutrina essencial. Pedia que a diferença de opinião não rompesse o vínculo do afeto cristão entre pessoas que confessam o mesmo Senhor e vivem sob a mesma graça salvadora.

Nossa posição, portanto, é explícita. A unidade da igreja não é uma preferência de temperamento pacífico, é mandamento. Devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para promovê-la e preservá-la, sem abrir mão da verdade do evangelho e sem exigir do irmão a uniformidade que a Escritura não exige. Onde a fé é a mesma, o Senhor é o mesmo e a salvação em Cristo é recebida pela mesma fé, ali há base suficiente para a mão estendida.

Trazemos de Limeira alguns compromissos práticos, e os deixamos também como convite. Falar bem dos irmãos de outras igrejas, em público e em particular, resistindo ao hábito de construir a identidade da nossa comunidade sobre a crítica das demais. Buscar cooperação concreta na cidade, começando por projetos que atendam pessoas reais em necessidade real. Cuidar de quem lidera, criando ambientes em que pastores possam dizer a verdade sobre o próprio cansaço sem medo de perder o ministério. E manter as relações que nasceram nesses dias, porque comunhão que não é cultivada evapora rápido.

A mesa está posta. O tempo é agora, e o mundo está olhando.

Conselho da Aliança Cristã Evangélica Brasileira

Limeira/SP, julho de 2026

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